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Geral Agro

É perigo? Tem risco? Ou mera percepção de risco?

No caso de agrotóxicos, a abordagem da Análise de Risco de Pesticidas é recomendada pelos órgãos internacionais que tratam do tema

29/05/2024 10h11
Por: Gideone Rosa Fonte: CCAS
Décio Luiz Gazzoni (foto), é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa, membro do Conselho Científico Agro Sustentável e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica
Décio Luiz Gazzoni (foto), é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa, membro do Conselho Científico Agro Sustentável e da Academia Brasileira de Ciência Agronômica

Por Décio Luiz Gazzoni

            Sabe aquela história da diferença entre fato e versão? É muito parecida com as diferenças entre perigo, risco e percepção do risco. Vamos a elas.

            Perigo é uma condição ou um conjunto de circunstâncias que têm o potencial de causar ou contribuir para ocasionar uma lesão ou morte (bit.ly/44kfsgi), sendo intrínseco a uma substância ou a um evento. Os mesmos autores conceituam risco como a probabilidade ou chance de lesão ou morte pela concretização de um perigo.

            Assim, risco é uma função da natureza do perigo, do potencial de exposição ao perigo, das características da população exposta, da probabilidade de ocorrência, da magnitude da exposição e das consequências.

Análise de risco

            A análise de risco é um procedimento científico. Consiste em aplicar modelos e algoritmos matemáticos, lastreados em bases de dados, que determinam os efeitos da exposição de um indivíduo, ou de um conjunto deles, a um determinado perigo. Ilustremos com algo do nosso cotidiano: é assim que se determina o risco de efeitos perniciosos de um medicamento à saúde humana.

            O gerenciamento do risco faz parte da análise, determinando quais procedimentos devem ser tomados para proteger alguém de um perigo, evitando ou mitigando o risco. São as instruções que aparecem na bula dos remédios e na receita do médico, como a dose, a frequência, a hora e o tempo de uso de um medicamento. E os procedimentos em caso de surgimento de sintomas adversos. Ou seja, o mesmo que é requerido para a receita agronômica.

            Os órgãos oficiais de governo são responsáveis por estabelecer o risco de uma substância, lastreado exclusivamente em informações científicas. O risco pode ser reavaliado com base em novas informações ou na alteração do método de análise ou de cálculo. As reavaliações sempre são mais severas e restritas do que a situação anterior.

            No caso de agrotóxicos, a abordagem da Análise de Risco de Pesticidas é recomendada pelos órgãos internacionais que tratam do tema – como a FAO – e adotada pela maioria dos países. No mundo desenvolvido, a exceção é a União Europeia, que ainda mantém a vetusta abordagem de perigo – e sua ferramenta, o princípio da precaução - o que gera muita confusão e comparações indevidas.

Conceitos de toxicologia

            Para auxiliar a separar fatos de mitos, riscos de sua percepção, ou diferenciar perigo de risco, é fundamental atentar para alguns conceitos toxicológicos:

            Dose Letal 50 (DL50): é a dose de uma substância química que levou a óbito 50% das cobaias em testes de laboratório. Quanto mais elevada for a DL50, mais seguro é o produto.

            Limite Máximo de Resíduo (LMR): é a quantidade máxima de resíduo de agrotóxico oficialmente aceita no alimento, em decorrência da sua aplicação adequada, desde a sua produção até o seu consumo, expresso em miligrama de resíduo por quilograma de alimento.
            Ingestão Diária Aceitável (IDA): é a quantidade estimada de substância presente nos alimentos que pode ser ingerida diariamente, ao longo de toda a vida de um indivíduo, sem oferecer risco à sua saúde, expressa em miligrama de substância por quilograma de peso corpóreo.
            Para assegurar que a saúde do consumidor está devidamente protegida, no cálculo da IDA, a maior dose que NÃO ocasionou quaisquer alterações metabólicas nos organismos em teste é dividida por 100. Assim, a IDA representa apenas 1% da dose que NÃO causou qualquer problema de saúde nos animais em teste. Logo, a probabilidade de que o valor calculado da IDA venha a causar algum problema de saúde em humanos é muito baixa, quase nula.

Percepção do risco
            Ao contrário do risco – um cálculo científico e preciso – a percepção do risco é uma avaliação totalmente subjetiva, realizada por uma pessoa isolada, ou por um conjunto delas. Percepção independe de fundamentação científica, sendo um comportamento descrito na psicologia de populações (bit.ly/3UIr6hW).

            Um exemplo clássico de quanto a percepção de risco pode ser errônea é trocar o avião pelo automóvel, devido ao temor de morrer em acidente aéreo. O que dizem as estatísticas? A probabilidade de morrer em um acidente de avião é de uma em 11 milhões (bit.ly/3JMqkK9). Já a probabilidade de morrer em acidente de carro é de uma em 5 mil (bit.ly/3QoMW7f). Mais de duas mil vezes maior.

            Entrementes, muitos cidadãos preferem trocar o carro pelo avião, com o argumento (falso) de o risco de acidente ser maior em viagens aéreas. Um mito clássico, derivado de uma percepção de risco equivocada.

Um exemplo
            Um argumento eventualmente utilizado por consumidores é que os alimentos estão contaminados por pesticidas e constituem um sério risco à sua saúde. Nada como um exemplo prático para demonstrar o quanto a percepção de risco se afasta do risco efetivo.

            Consideremos o controle de uma praga da batata, descrito no livro Agricultura, fatos e mitos (bit.ly/3NsHgrs). Suponha-se uma aplicação do inseticida deltametrina em solução aquosa. Sua DL50 oral é de 5.000 mg/kg de peso corpóreo (bit.ly/3QN8JGf); o valor da IDA é de 0,01mg/kg de peso corpóreo; e o LMR de 0,01mg/kg de batata.

            Para que não haja controvérsias, vamos supor o pior caso possível: que toda batata sempre tenha o nível máximo de resíduo permitido (embora seja impossível de acontecer na prática). Consideremos um brasileiro médio, com peso de 80 kg (bit.ly/3JIwGum). A ingestão diária de uma pessoa com esse peso, com garantia de não haver qualquer risco à sua saúde (IDA), será de 0,8mg/dia do inseticida (0,01mg/kg x 80kg).

            Como na nossa hipótese de resíduo máximo cada quilo de batata tem 0,01mg de resíduo, um cidadão com o peso acima pode ingerir, diariamente, o seu próprio peso em batatas, ou seja, 80 kg de batata por dia (0,8mg de deltametrina que podem ser ingeridos ÷ 0,01mg/kg de batata), durante toda a sua vida, sem que haja qualquer problema de saúde devido à presença de resíduos. Haja batata!

            Prosseguindo com os cálculos. Em teoria, para que seja atingida a DL50, seria necessário consumir os mesmos 80 kg de batata todos os dias, durante 1.369 anos, quando haveria 50% de probabilidade de óbito ocasionado por intoxicação pelo inseticida. Agora, se o consumo fosse o factível – embora exagerado - de apenas 200 g de batata/dia, então seriam necessários, teoricamente, 583.019 anos para atingir o valor da DL50.

            Não apenas é impossível para uma pessoa consumir 80 kg/dia de batata – ou viver 1.369 anos! - como o inseticida se degrada a partir de algumas horas após a sua ingestão. Logo, o organismo nunca irá acumular a quantidade suficiente para intoxicar o indivíduo, mesmo que ele vivesse os 583 mil anos.

            O exemplo demonstra a sobejo que o risco de intoxicação pelo resíduo desse agrotóxico está absolutamente controlado. Os cálculos constituem um fato, que demonstra a eliminação do risco, consequentemente do equívoco da percepção do risco.

            E por que o risco está eliminado? Lembremo-nos da menção acima ao gerenciamento do risco. Faz parte da análise de risco eliminar ou mitigar o risco identificado. Para os alimentos isso é efetuado com o estabelecimento dos parâmetros toxicológicos adequados, em especial o limite máximo de resíduos (LMR), que garante a inocuidade do alimento.

            Concluindo, siga a Ciência e sua ferramenta de análise de risco. As percepções de risco nada têm de científico, via-de-regra não refletem a realidade. E alimente-se tranquilamente, nossos alimentos são seguros.

Sobre o CCAS

O Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) é uma organização da Sociedade Civil, criada em 15 de abril de 2011, com domicilio, sede e foro no município de São Paulo (SP), com o objetivo precípuo de discutir temas relacionados à sustentabilidade da agricultura e se posicionar, de maneira clara, sobre o assunto.

O CCAS é uma entidade privada, de natureza associativa, sem fins econômicos, pautando suas ações na imparcialidade, ética e transparência, sempre valorizando o conhecimento científico. 

Os associados do CCAS são profissionais de diferentes formações e áreas de atuação, tanto na área pública quanto privada, que comungam o objetivo comum de pugnar pela sustentabilidade da agricultura brasileira. São profissionais que se destacam por suas atividades técnico-científicas e que se dispõem a apresentar fatos, lastreados em verdades científicas, para comprovar a sustentabilidade das atividades agrícolas.

A agricultura, por sua importância fundamental para o país e para cada cidadão, tem sua reputação e imagem em construção, alternando percepções positivas e negativas. É preciso que professores, pesquisadores e especialistas no tema apresentem e discutam suas teses, estudos e opiniões, para melhor informação da sociedade. Não podemos deixar de lembrar que a evolução da civilização só foi possível devido à agricultura. É importante que todo o conhecimento acumulado nas Universidades e Instituições de Pesquisa, assim como a larga experiência dos agricultores, seja colocado à disposição da população, para que a realidade da agricultura, em especial seu caráter de sustentabilidade, transpareça. Mais informações no website: Link. Acompanhe também o CCAS nas redes sociais:

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