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Senta que lá vem mais história

Mais um conto do "meu" Rio Doce:

22/04/2024 16h33
Por: Gideone Rosa Fonte: Ivacil Ferreira
"A Ponte Velha de Aparecida do Rio Doce estava assim. Agora a enchente levou o resto." Por Ivacil Ferreira
"A Ponte Velha de Aparecida do Rio Doce estava assim. Agora a enchente levou o resto." Por Ivacil Ferreira

Dona Maria do Porrete
     Era uma velha magrinha e ligeira. Morava a uns dois quilômetros do Povoado com o seu velho, o Seu Joaquim. Era uma casinha cuja cobertura de capim ia se afunilando, formando um cone longo e torto. Parecia uma daquelas casinhas das bruxas europeias, guardadas as devidas proporções, porque aquela ali tinha um quê de indígena, devido à quase ausência de paredes, sendo que o teto fazia as vezes destas. Assim quase como a casa do Boca Torta do Lobato. A cisterna ficava dentro da casa, onde havia o fogão a lenha e a cama, além de três tábuas sobre forquilhas, que eram as prateleiras.
     Uns diziam que eram índios, outros, que descendentes. O que todo mundo sabia era que eles não tomavam banho. Diz que nunca tinham tomado. Tinham uma cor amarelo-esverdinhada, a pele engelhada em extremo e os cabelos hirsutos, nunca penteados. As roupas dos dois não tinham mais cor original. Pareciam um encerado impermeável, com camadas acumuladas de óleo, poeira e fuligem. 
     
Na verdade, poucas pessoas viam o velho, que vivia enfurnado na cabana, resmungando suas pragas e maldições contra os gaiatos que gritavam ou atiravam coisas contra a sua moradia. O Jerominho, que morava por perto, era um dos que mais azucrinavam a vida dos dois. Mas o velho não deixou por menos. Um dia, o moleque lá vinha todo folgado, assobiando o Menino da porteira, já pensando na maldade que iria fazer. O que ele não sabia é que o velho já estava de prontidão, com a pedra na malha do bodoque coçando para fazer uma mancha roxa na testa do menino. E foi dito e feito. Quando ele se abaixou para pegar uma pedra e se levantou para atirar, já o velho, com o arco retesado, atingiu-o numa das costelas, porque ele deu um pulo e o projétil destinado à testa o alvejou muito abaixo. Foi sorte, porque uma pedrada daquelas na testa o teria levado para ser um dos poucos moradores da recém-inaugurada Vila do Pé Junto. O pobre Jerominho saiu gritando feito um possesso. Quer dizer, quase, porque lhe faltava o fôlego para tanto, dado o tamanho da dor. O certo é que a mãe teve que colocar um emplastro de resinas de Jatobá e Almesca, amassadas com Azeite Doce, que o tio dele foi correndo pedir na casa da Dona Aurora. Ficou mais de duas semanas andando encolhido feito franguinho pesteado. 
     
A Dona Maria do Porrete saía todo dia bem cedo para fazer a coleta. Passava por todas as doze ruas do Povoado recolhendo víveres que os moradores sempre doavam. Carregava a tiracolo um imenso embornal tão seboso quanto a roupa, onde metia tudo junto o que lhe era dado pelas bondosas senhoras riodocenses: toucinho, saquinhos de arroz, de feijão, de fava, de canjica, qualquer cereal disponível, enfim. Também ganhava pedaços de linguiça, mantas de carne de porco seca, carcaças e pés de frango embrulhados com o papel vindo da Venda do Domício ou do Açougue do Oricão. O cardápio dependia do dia e era muito imprevisível. 
     
A meninada tinha medo dela, porque o porrete era para isso mesmo: acertar o lombo de quem se atrevesse a qualquer desrespeito. O Lili do Seu Antônio Borges vivia mexendo com ela, dizendo que ia lhe dar um beijo. E ele já era um rapaz taludo. A Dona Aurora vivia dizendo que ele ainda ia levar uma porretada, mas ele se fazia de esquerdo. Aconteceu que um dia ele estava sentado no banco da oficina, todo distraído, lendo um gibi do Zorro, quando sentiu a bordoada no talo do pescoço. Só não caiu porque era muito forte, mas berrou feito bezerro levando taca. E a velha não arredou pé. Ficou ali com o porrete pronto para outra, se ele dissesse qualquer coisa. O quê! Nunca mais o Lili falou gracinha. Quando alguém queria provocá-lo ou ele estava muito gabola, gritava “Lá vem a velha do porrete!”. Era o mesmo que jogar água no fogo. Ele ficava todo sem graça. 
     
A Dona Alexandrina era uma fera com os meninos por causa desse tipo de atitude. Filho dela não abusava de gente doida, nem aleijada, nem “boba”, como eram chamados os portadores de quaisquer necessidades especiais naquela época. Ai de quem ousasse fazer isso, porque todo mundo contava e a surra era certa. Com vara da amoreira da beira da cerca. O Cilinho, porém, era muito obediente e bonzinho. A Dona Maria gostava muito dele. Um dia, passando pela estrada, os dois velhos estavam do lado de fora e sorriram para ele, que resolveu chegar para uma prosa. Estava com muito medo mas fingiu que nada! O velho Joaquim conversava com ele sorrindo, mostrando a casinha. Lá dentro ele ficou com mais medo. E se o velho o jogasse dentro da cisterna ou se o amarrasse pelo pé como o Joãozinho irmão da Maria? Não queria ser engordado e assado. Mas os velhos nem perceberam nada. Tudo ali era da mesma cor suja. Havia duas panelas de ferro, sendo uma para cozinhar o feijão ou a canjica, que demoravam mais e a outra, onde a comida era feita com tudo misturado: arroz, verdura, carne, ervilhas ou favas verdes, o que houvesse na hora. O cheiro era terrível, para quem estava acostumado com as comidas das Carvalho. Nas prateleiras, três pratos esmaltados descascados, três garfos e duas colheres, além do pote de água. Algumas cuias guardavam restos de cereais ou alguma sobra de toucinho salgado. A cama era um jirau de varas com um colchão de palhas, tudo muito nauseabundo. O menino saiu dali dando graças a Deus por sua família ser pobre mas limpinha. Não contaria para ninguém do medo sentido, só da parte boa, de ter dado atenção para os velhinhos. Agora eram amigos e eles sempre gritavam o Bom Dia quando ele passava, mas agora ele sempre dizia que estava com muita pressa e “outra hora” entrava para uma visita. 
     
Ao que consta, eles não tinham filhos e nem outro tipo de parentes. Pelo menos que alguém soubesse. Ninguém sabia desde quando moravam ali. Mesmo os mais antigos moradores diziam que eles já estavam lá, quando chegaram. O certo é que não faziam mal a ninguém, a não ser se defender quando eram provocados. Parece que não eram de religião nenhuma. No povoado havia o centro do Seu João Sobrinho e um rancho onde os padres vinham dizer missa uma vez por mês. A família do Seu Antônio Borges era protestante. Periodicamente recebiam a visita do Reverendo Bill. A Dona Maria do Porrete não ia a nenhum. Decerto tinham lá a sua religião de índio, que ninguém sabia como era.

Fonte: Facebook/Ivacil Ferreira

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