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terça-feira, 30 de abril de 2019

Diário de um paciente de quimio

Divulgação Google
Fé sim, mas sem agressões

"Hoje está tenso aqui na quimioterapia. Uma senhora que fez transplante e está muito debilitada chegou com o marido. Ela está totalmente estressada, sem paciência, e o marido, do mesmo jeito, só complica mais a situação. Ela quer ser atendida imediatamente em tudo o que quer. 

As enfermeiras se estressam, pedindo para ela ter calma, que tem muita gente para ser atendida e a situação só vai piorando. Mas pra piorar tudo, a mãe de um rapaz que está tomando quimioterapia, evangélica, resolveu intervir. Não tenho nada contra religião nenhuma, contra evangélicos, mas daqui a pouco acho que sou eu que vou “entrar em parafuso”. 

A mulher, que já topei aqui outras vezes, se mete em tudo! Puta que pariu! Recita “A Palavra”, dá conselhos de toda ordem, faz a senhora repetir frases motivacionais (Deus isso, Deus aquilo). Quem está passando pelo que essa senhora está passando realmente tem pressa, se estressa, mas isso não adianta, só aumenta a tensão e o sofrimento. Quando eu cheguei todas as cadeiras de quimioterapia estavam ocupadas, daí só me apresentei para a equipe e fui esperar lá de fora. 

Quando foi possível, me chamaram. Na consulta com o médico geralmente demora horas para ser atendido, já esperei até cinco horas. Nunca reclamei ou me estressei, pois sei o tanto de gente que ele atende aqui, sei que às vezes atrasa lá no Hospital Araújo Jorge, onde ele também atende, sei que tem dias que ele nem almoça atendendo pacientes, então ... . Tolerância, paciência, compreensão tem sido artigo raro hoje em dia! “Em nome de Jesus”! 

Em tempo: o problema não está nas religiões, mas nas pessoas. Tem uma outra senhora, evangélica, que encontro sempre aqui (encontrei agora, na saída), que é fantástica: transmite serenidade, equilíbrio, bondade, fé, equanimidade, sem nunca falar de religião."

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