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domingo, 31 de março de 2019

Caos na saúde pública de Jataí

Senta que lá vem mais história


Em um relato breve DC Mello descreve o problema crônico da saúde pública em Jataí o que nos remete aos primórdios do Município tempo que os grande Coronéis ditavam as regras na política.
Com sua inteligência, perspicácia e habilidoso pesquisador  narrador de fatos históricos DC Mello vai aos "Porões" da história Jataiense e regasta esses fatos ocorridos no passado que se fazem presentes mostrando um problema que não é de hoje. 

Por DC Mello
Os problemas que envolvem a saúde pública parece que surgiram pra ficar e isso não é de agora. Se ainda hoje os governos se mostram impotentes para contorná-los, imagina o flagelo que era para a população no século XIX, para não ir mais longe, quando as câmaras de vereadores eram obrigadas, por lei, a cuidar da saúde do povo.

O passado de Jataí tem episódios terríveis relacionados à saúde pública. Ai daquele que adoecesse. As famílias se viravam com receitas caseiras ou indicadas por charlatões que viviam às dúzias por aqui, como foi o caso de Herculano Carneiro entre outros. Se o doente tivesse dinheiro, mandava buscar recursos lá fora ou senão arrumava um carro de boi pra levar o coitado aonde fosse preciso. Conforme a gravidade da doença, às vezes o paciente nem chegava.

No tempo de Goiás Província, só a Capital possuía recursos médicos. No Hospital de Caridade S. Pedro de Alcântara, o único no centro do país, havia dois ou três médicos trabalhando sem equipamentos e em péssimas condições de higiene.

Naquela época, ninguém sabia sobre assistência médica e muito menos onde conseguir medicamentos, pois por aqui não havia farmácia.

As famílias se viravam com chás e receitas próprias aprendidas em casa. Para ilustrar essa fase difícil, Ana Cândida Moraes de Carvalho, primeira esposa de José Carvalho Bastos, teve 24 filhos, mas desses 24 somente dez chegaram à idade adulta. Tudo porque faltou assistência médica. Pré-natal não havia nem em sonho.

O primeiro registro conhecido da presença de médico morando e clinicando em Jataí foi em 1907. Era o Dr. Humberto Martins Ribeiro.

Esse cidadão alagoano se aclimatou por aqui, foi eleito vereador com a maior votação, deu posse ao intendente Honorato de Carvalho e foi presidente da Casa naquela Legislatura. Foi esse médico quem assistiu à Dona Ana Gedda no parto comj fórceps, quando nasceu Antônio Soares Gedda. É bom lembrar que Dr. Humberto Martins foi o primeiro vereador de Jataí a assumir o Governo do Estado em 1929 e 30.
Uma doença que atormentou as autoridades de Jataí foi a lepra.

A hanseníase assustava pela ação agressiva no organismo humano, pela facilidade de transmissão, além de incapacitar a vítima e ser mutiladora. Os médicos indicavam isolamento compulsório dos doentes.

Em 1941, por iniciativa do IBGE, foi formada em Jataí uma Comissão Censitária que objetivava fazer a Monografia Geográfica do Município. Dela fez parte o Médico Lauro Taveira que respondeu e assinou o questionário apresentado. Desse documento extraímos alguns itens que retratam a realidade de Jataí daquele tempo. Entre os itens abordados, destacamos sua opinião sobre a lepra. Assim escreveu Dr.
Lauro, “há epidemias de caxumba, sarampo e varíola, embora quase sem vítimas, devido aos abalizados clínicos que tudo fazem, sem remuneração, pela saúde pública. O Estado mantém um Posto de Higiene destinado ao combate da sífilis, do impaludismo e verminoses.

Existe um projeto de construção de uma Casa de Misericórdia (Hospital Regional) exclusivamente a custa do povo. Morféticos provenientes do Triângulo Mineiro (principal foco do Brasil) e também de outros municípios do Estado, infestam as ruas, e não obedecem às mais rudimentares regras de higiene. Não é possível a população suportar essa carga pesadíssima de doentes altamente contagiosos. Se o povo paga a taxa de assistência social aos governos, é obvio que essa tarefa compete aos poderes competentes. Resta ao povo uma medida, aparentemente desumana, única: negar-lhes, sistematicamente, óbolos e deixá-los entregues à morte por inanição, a fim de que a maioria se defenda do perigo de contaminação”.

Em 1945, no mandato do prefeito Júlio de Souza Cunha, aparece um lançamento no Livro de Registro de Despesa da Prefeitura: “Pago a José Alcides Machado, de Goiânia, despesa com a captura de leprosos desta cidade e transporte dos mesmos para a Colônia Santa Marta, em Goiânia”. Mais adiante, em 1948, o vereador Sebastião Herculano de Souza pediu à Câmara que “acione o Prefeito, o Chefe do Posto de Higiene, o Promotor Público e até o Delegado de Polícia, para de modo cristão, no sentido de se evitar que os doentes do Mal de Hansen perambulem e esmolem pelas ruas desta cidade, a fim de evitar o contágio de tão terrível quão repugnante moléstia”. Esta matéria foi objeto de discussão em várias sessões da Câmara, sem, no entanto, surgir qualquer solução ao problema.

DC Mello (foto) é escritor e já foi membro da Academia Jataiense de Letras, é professor e historiador. Hoje é o responsável por registrar e digitalizar os fatos históricos da Câmara Municipal de Jataí.

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