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segunda-feira, 18 de junho de 2018

Brasileiro não aceita que outra seleção jogue bem; nós é que jogamos mal

Empate com a Suíça levará a Seleção Brasileira a retirar o salto alto e a calçar as sandálias do realismo

Por Euler de França Belém
Nós, brasileiros, aceitamos que os suíços e os japoneses fabricam melhores relógios que os… chineses (o meu, diga-se, é chinês). Aceitamos que os automóveis suecos, Volvo, e alemães, Mercedes, são mais resistentes. Aceitamos que alemães, japoneses e americanos são, no geral, excelentes em matemática. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) deixa orgulhosos os brasileiros… que sabem do que se trata. Mas, em termos de futebol, aí não: somos os melhores. Deuses incorrigíveis e incontornáveis (quem consegue, por exemplo, usurpar o trono de Pelé). Não há um brasileiro com mais de seis anos que não se habilite ao cargo de Tite, o técnico da Seleção Brasileira. Se Jesus Cristo voltasse, apresentando-se como expert em futebol, seria contestado de maneira implacável. Somos mais de 200 milhões de treinadores de futebol, de comentaristas esportivos e, se brincar, já, na idade apropriada, jogamos como Neymar, o, digamos, craque que figura entre os deuses do Olimpo. Robert Graves e Junito Brandão não o inscreveram nos seus livros sobre mitologia porque não chegaram a conhecê-lo.

Se os somos os melhores no futebol — de fato, estamos entre os melhores —, é natural que não podemos perder nem empatar. É sacrilégio empatar com a Suíça (que, ao contrário do que escreveu Graham Greene, não fez apenas o relógio cuco; seus bancos lavam parte do dinheiro sujo do mundo e financiaram parte do tráfico negreiro). Em 2014, perdemos da Alemanha — e, vergonha, por 7 a 1. Consta que Ricardo Teixeira, quando poderoso chefão do esporte bretão no país, chegou a pensar em convencer um deputado a apresentar um projeto para banir o sete da matemática. Saltaríamos do seis diretamente para o oito. O risco seria alguém, não podendo citar o sete, escrever que a turma do país de Goethe e Thomas Mann venceu os canarinhos por 8 a 1 e não por 6 a 1. Ainda bem que “rejeitaram” o projeto do ex-comandante-em-chefe da CBF antes que fosse “apresentado”.

Empate é derrota para o brasileiro

Como somos os melhores em futebol — nossa maior commodity não é a soja, mas jogadores, como Neymar, Marcelo e Philippe Coutinho —, só aceitamos vitórias. Empate, para nós, tem sabor de derrota e, pois, leva a uma deprê momentânea. A nossa tese hegemônica é: o outro time não jogou bem, nós é que jogamos mal.

No domingo, 17, depois das 15 horas — nós nunca dizemos assim; preferimos 3 horas da tarde —, calçamos chuteiras nem tão imaginários, vestimos uma camiseta amarela (a com o nome Neymar nas costas é crucial) e nos sentamos na capela de toda casa (residência é pernosticismo, não é?), olhando atentamente para a santa televisão (televisor! Não, é uma palavra horrorosa). O microfone é imaginário, mas os brasileiros — nas e fora das redes sociais — são comentaristas natos. São melhores, até muito melhores, do que Galvão Bueno, Casagrande, Júnior, Roger, Caio e Tostão (que só escreve em jornal, na “Folha de S. Paulo”).

Em campo, duas seleções — o termo seleções às vezes é usado de maneira imprecisa — com seus jogadores mais qualificados: a Brasileira e a Suíça. A de vermelho, perdendo a vergonha, fez a de amarelo amarelar?

Nós — eu na primeira fila, pois não sou nada isento; no caso da Seleção, sou torcedor — somos assim: não admitimos, no caso de derrota e empate, que o outro time tenha jogado bem e até de modo superior. Nós é que jogamos mal.

No primeiro tempo, o Brasil fez um gol, agradou aos comentaristas — era o prenúncio de uma goleada — e voltou para o segundo tempo jogando em câmera lenta, errando passes. Seria um passeio.
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